Como soldar inox com TIG: passo a passo e parâmetros corretos
A soldagem TIG de aço inoxidável exige controle rigoroso de parâmetros para garantir resistência à corrosão e integridade metalúrgica. Erros de configuração comprometem a junta e invalidam qualificações de procedimento. Este guia apresenta os critérios técnicos essenciais para quem trabalha com inox em ambientes industriais.
- Parâmetros de corrente, gás de proteção e abertura de arco para TIG em inox
- Como escolher o consumível certo entre ER308L e ER316L
- Preparação de junta, proteção de raiz e controle de distorção térmica
- Defeitos mais comuns e como evitá-los antes de qualquer reparo
Por que a soldagem TIG é a escolha certa para aço inoxidável?
O processo TIG (Tungsten Inert Gas) é o mais indicado para soldagem de inox porque oferece arco estável, baixo aporte térmico controlável e ausência de escória. Segundo a American Welding Society (AWS), processos de eletrodo não consumível como o TIG produzem juntas com menor distorção e microestrutura mais consistente em aços austeníticos.
O inox austenitico, como os tipos 304 e 316, é sensível à precipitação de carbonetos de cromo (sensitização) quando aquecido entre 450 °C e 850 °C por tempo excessivo. O TIG permite controlar o aporte térmico com precisão, reduzindo esse risco frente a processos como eletrodo revestido ou MIG convencional.
Outra vantagem decisiva é a qualidade visual e dimensional da solda. Em aplicações como tubulações sanitárias, vasos de pressão classe ASME e estruturas farmacêuticas, a norma exige acabamento interno sem irregularidades. O TIG entrega isso sem esmerilhamento extensivo quando operado corretamente.
Quais são os parâmetros essenciais para soldar inox com TIG?
Os parâmetros básicos variam conforme espessura do material, mas existem faixas técnicas consolidadas na literatura da AWS e da norma ASME IX. Para chapas de 1,5 mm a 3 mm de inox 304 ou 316, a corrente contínua com eletrodo negativo (DCEN) situa-se entre 60 A e 120 A. Espessuras maiores exigem ajuste progressivo.
Corrente e polaridade
Utilize sempre corrente contínua com eletrodo negativo (DCEN) para inox. Essa configuração concentra o calor na peça e preserva o eletrodo de tungstênio. A corrente alternada (AC), adequada para alumínio, gera instabilidade de arco no inox e oxida a proteção superficial de cromo, prejudicando a resistência à corrosão.
Para passes de raiz em tubos de inox schedule 10 (parede de 2,77 mm), a faixa de 65 A a 80 A é amplamente usada em procedimentos qualificados. Passes de enchimento e acabamento trabalham em faixas superiores conforme a geometria da junta e a posição de soldagem.
Gás de proteção e vazão
O argônio puro (Ar 99,99%) é o gás padrão para TIG em inox. A vazão recomendada fica entre 8 L/min e 12 L/min para tochas convencionais com bocal n.° 6 ou n.° 8. Misturas com hélio (Ar/He) aumentam a penetração e o aporte térmico, sendo indicadas para espessuras acima de 6 mm.
Evite correntes de ar no ambiente de trabalho. Uma brisa de 2 km/h já é suficiente para deslocar a proteção gasosa e provocar oxidação (coloração amarela ou marrom na ZAC). Quando soldar em campo, use anteparas de lona ao redor da junta.
Eletrodo de tungstênio
Para inox com corrente contínua, use tungstênio toriado (cinza, 2% ThO2) ou ceriated (cinza-dourado, 2% CeO2). O diâmetro do eletrodo deve corresponder à faixa de corrente utilizada: 1,6 mm para até 100 A e 2,4 mm para até 180 A. A ponta deve ser afiada em ângulo de 30° a 45°, com esmeril exclusivo para tungstênio.
Como preparar a junta antes de soldar inox com TIG?
A preparação da junta é tão crítica quanto a execução da solda. Contaminações por gordura, óxidos ou partículas ferrosas são as principais causas de porosidade e falta de fusão em soldas TIG de inox. A norma AWS D1.6 (Structural Welding - Stainless Steel) exige limpeza da superfície a no mínimo 25 mm de cada lado da junta antes de iniciar.
Use escova de aço inoxidável exclusiva para inox, nunca compartilhada com aço carbono. A contaminação cruzada deposita partículas de ferro que enferrujam na superfície do inox após a soldagem. Para remoção de óleos e graxas, use acetona ou álcool isopropílico, aplicados com pano sem fiapos.
O bisel para juntas de topo em chapas de 3 mm a 6 mm deve ter ângulo de 60° a 70° (30° a 35° por lado), com nariz entre 0,5 mm e 1 mm. Juntas sem abertura adequada forçam o soldador a aumentar a corrente para garantir fusão, elevando o risco de sensitização.
Quando e como usar proteção de raiz (back purging) em inox?
A proteção de raiz com argônio é obrigatória em soldagem de inox para aplicações que exigem resistência à corrosão na face interna da junta. Sem back purging, a face de raiz oxida durante a soldagem, formando a chamada "solda de açúcar" (sugaring), que reduz drasticamente a resistência à corrosão intergranular.
Em tubulações de processos alimentícios, farmacêuticos ou petroquímicos, a oxidação interna é causa de não conformidade imediata. A pressão interna de argônio deve ser positiva, entre 0,01 bar e 0,05 bar acima da pressão atmosférica, com vazão de purga calculada em função do volume interno do tubo.
Para tubos de diâmetro reduzido (até 2"), use plugues de purga com entrada e saída de gás separadas. Para diâmetros maiores, improvise câmaras com fita de papel kraft resistente ao calor, selando a região próxima à junta e mantendo uma saída para evitar pressurização excessiva.
Quais consumíveis usar na soldagem TIG de inox?
A escolha da vareta TIG inox ER308L é o ponto de partida para inox 304 (AISI 304 / UNS S30400). O sufixo "L" indica teor de carbono controlado (máximo 0,03%), que reduz a sensitização em juntas com múltiplos passes. Para inox 316, que contém molibdênio para resistência a cloretos, a vareta correta é a ER316L.
Varetas de 2,4 mm de diâmetro são adequadas para passes de raiz e enchimento em juntas de até 6 mm. Para espessuras acima de 10 mm, o diâmetro de 3,2 mm reduz o número de passes e o tempo de soldagem. Armazene as varetas em embalagem original ou tubo de PVC fechado para evitar contaminação por umidade e partículas em suspensão.
Como controlar a distorção térmica no inox?
O aço inoxidável austenítico tem coeficiente de expansão térmica cerca de 50% maior que o aço carbono, segundo dados do Nickel Institute. Isso significa que chapas de inox empenam mais facilmente durante a soldagem, especialmente em espessuras finas. O controle de distorção começa antes de abrir o arco.
Use gabaritos de fixação (fixtures) para manter o alinhamento da junta durante toda a sequência de soldagem. A sequência de ponteamento (tack welding) deve ser simétrica em relação ao centro da junta, com espaçamento máximo de 150 mm entre pontos para chapas de 2 mm a 3 mm.
Aplique passes curtos (máximo 150 mm por vez) e aguarde o resfriamento natural entre passes quando a temperatura da junta ultrapassar 150 °C (medida com pirômetro ou giz térmico). Refrigeração forçada com água é proibida em inox austenítico porque gera choque térmico e pode induzir trincas na ZAC.
Defeitos mais comuns na soldagem TIG de inox e como evitá-los
Os defeitos recorrentes em TIG de inox têm causas identificáveis e preveníveis. A porosidade, por exemplo, é quase sempre resultado de contaminação (umidade, gordura ou argônio impuro) ou de vazão de gás insuficiente. A falta de fusão indica corrente baixa demais ou velocidade de avanço excessiva para a espessura soldada.
A coloração da solda é um indicador imediato da qualidade da proteção gasosa. Solda prata ou dourado claro indica proteção adequada. Cores azul intenso, cinza ou preta indicam oxidação progressiva e exigem revisão da vazão de argônio e verificação de possíveis vazamentos na mangueira da tocha.
A máquina de solda TIG deve estar calibrada e com o sistema de alta frequência (HF) funcionando corretamente para abertura de arco sem contato. O toque do tungstênio na peça ou na vareta contamina o eletrodo com tungstênio fundido (inclusão de tungstênio), defeito que exige interrupção imediata, reafiação do eletrodo e reparo da junta.
Perguntas frequentes sobre soldar inox com TIG
Posso usar argônio comercial (99,5%) para TIG em inox?
Não é recomendado. O argônio para soldagem TIG deve ter pureza mínima de 99,99% (grau soldagem). O argônio comercial 99,5% contém traços de oxigênio e umidade que oxidam o inox durante a soldagem, prejudicando a resistência à corrosão. A diferença de custo entre os graus é pequena frente ao custo de um reparo.
Qual a distância ideal entre o bico de tungstênio e a peça?
A distância eletrodo-peça (stick-out ou comprimento de arco) para TIG em inox deve ficar entre 1,5 mm e 3 mm. Distâncias maiores aumentam a tensão de arco e reduzem a estabilidade, favorecendo turbulência na cobertura de gás. Mantenha a tocha o mais próxima possível da peça sem tocar a poça de fusão.
Preciso de pré-aquecimento para soldar inox 304?
Geralmente não. O inox austenítico 304 não requer pré-aquecimento para soldagem nas condições normais de temperatura ambiente (acima de 10 °C). O pré-aquecimento é prejudicial porque aumenta o aporte térmico total e eleva o risco de sensitização. Consulte o procedimento qualificado (WPS) quando houver exigência normativa específica.
Como secar as varetas TIG de inox antes do uso?
Varetas TIG de inox são menos higroscópicas que eletrodos revestidos e geralmente não exigem secagem em estufa. Porém, varetas armazenadas em ambientes úmidos (umidade relativa acima de 80%) por tempo prolongado podem apresentar contaminação superficial. Limpe com pano seco e acetona antes de usar, e armazene em local fechado com umidade controlada.
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